REVISTA nº 1

A origem que pulsa no contemporâneo

Num mundo tão ruidoso como o que experimentamos, tão efusivamente alusivo, reiterativo, perecível, a memória se torna um instrumento ainda mais decisivo para a contemporaneidade.

Júlia Medeiros
21 Fev 2020 4 Min
A origem que pulsa no contemporâneo

O cesto de guardar menino ficava amarrado à viga do teto por duas cordas. Ela depositava o rebento e girava o balaio, enroscando as tiras de sisal até no alto. Quando soltava, o moisés vinha desfazendo o giro rapidamente e a criança, que estava acordada, chegava adormecida ao ponto final. Mamãe era danada – meu avô contava e ria nos almoços ou jantares em que, mais uma vez, sua mãe tinha o protagonismo das histórias. Não cheguei a conhecê-la, mas admirei aquela bisavó improvável por muitos anos. Quando meu avô adoeceu gravemente e passou a não falar, lamentei a ausência de suas anedotas e fui buscá-las em seu irmão, quem sabe, para um livro.

Ilustração: Elisa Carareto

Meu tio-avô não reconhecia a mulher irreverente que eu descrevi. Ele era o caçula de cinco e meu avô, o primogênito. Me lembro da vez em que minha mãe me deu um beijo – ele disse. Da vez… Aquele artigo definido me atravessa até hoje. Segundo meu tio, não houve um dia sequer em que ela não o tivesse chamado à cama, onde restou enferma por anos, para lhe dar um tapa ou beliscão. Os dois eram filhos da mesma mulher, mas eu diria que não tiveram a mesma mãe. A bisavó que eu tinha ganhado do meu avô tornou-se, para mim, uma personagem fascinante, polêmica, convincente. Uma mulher capaz de revelar tanto as marcas de um tempo coletivo, como de me oferecer um enredo íntimo e familiar enfim compatível aos vultos emocionais que me percorriam desde a infância.

Pensando bem, meu avô não se divertia tanto assim ao narrá-la. Era eu quem ria muito daquelas situações peculiares, que só mais tarde fui entender que poderiam ser traumáticas a ponto de se passar uma vida inteira as revivendo nos almoços ou jantares. Senti um gosto de farsa. De não termos, na infância, as lentes ajustadas para as entrelinhas e estarmos mais suscetíveis ao engano.

Nesse momento, eu já tinha na gaveta uma história escrita sobre minha avó paterna, que viria a se tornar o livro “A Avó Amarela”. Ele oferece ao leitor o olhar de uma criança sobre a matriarca da família durante um domingo em sua casa. Só que a mesma menina que está presente naquele dia o narra do futuro, como lembrança. Está correto pensar que ela deveria ter envelhecido, que era preciso estar adulta ou, pelo menos, jovem para se referir à infância no passado. Mas, sem querer, eu estava dando àquela menina a chance de finalmente enxergar os vultos – sem, contudo, deixar de senti-los. Ou era ela quem me permitia senti-los de novo e não somente sabê-los? Aquele ângulo privilegiado me fez pensar que estaremos todos suscetíveis ao engano se restringirmos nossa percepção a um único endereço no tempo.

Capa do livro “A avó amarela”

O artista australiano Ron Mueck ficou famoso no mundo inteiro por suas esculturas hiper-realistas. São pessoas retratadas com fidelidade clínica em seus tons, circunferências, feridas, inchaços, melancolia, calvície, apatia. Porém, o que as torna ainda mais reais, hiper-reais, são suas dimensões surreais: um casal de banhistas idosos é retratado em escala gigantesca, devolvendo ao público o ângulo de visão da infância. Já o bebê, também enorme, nos remete à observação amplificada que dedicamos aos recém-nascidos. A mãe com o filho no colo surge diminuta, oprimida pelo puerpério. O rosto enorme do homem dormindo tem a exata dimensão de quando eu ia acordar meu pai, mas primeiro gastava um tempo investigando seus poros, a respiração profunda, as olheiras, a saliva no canto da boca, o maxilar rendido. É na memória do espectador que as obras atingem o ápice da realidade. Por serem compatíveis não apenas com a vida como a vivemos, mas com a vida tal qual a recordamos, as esculturas de Mueck provocam uma fusão no tempo, onde é possível concretizar nossa subjetividade.

Num mundo tão ruidoso como o que experimentamos, tão efusivamente alusivo, reiterativo, perecível, a memória se torna um instrumento ainda mais decisivo. Como se não pudéssemos nos ouvir com pureza e a cada dia fosse mais necessário recorrer a ela para chegar ao que existe de particular, de próprio – que é a única maneira de nos lançarmos ao futuro. Ou mais: de perseguir a contemporaneidade onde pulsa, de maneira obrigatoriamente latente, a origem.

 

Júlia Medeiros

é escritora, atriz e gestora cultural. Integrante do Grupo Ponto de Partida por 16 anos. Seu livro, “A Avó Amarela” (Ed. ÔZé, ilustrações Elisa Carareto), venceu o Prêmio Jabuti 2019.

Registro: Estúdio WTF

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